Apetecer
Abril 20, 2008
Apetece-me abrir caminho por esta estrada de pensamento
pegar na caneta catana e agita-la num redondo movimento
segurar nessa ferramenta como se a cada rápido movimento
nascesse das trevas da imaginação um longo momento
desprendido
separado
do tempo
onde o espaço se esquece de ser
onde o escritor não para de escrever
onde as ideias não cessam de acontecer
No momento fora do tempo que é escrever
gosto de pensar que sou rei do meu pensamento
mas nada mais sou que o seu simples arauto
destinado a servir o meu amo
sem nada a dizer,
leio autos,
limito-me a escrever.
As palavras voam,
fazem-me esquecer
as regras gramaticais
de as bem dizer
e rimar como deve ser.
Ao fundo do túnel
Abril 20, 2008
Caminhava e estava escuro, como sempre esteve. Um nevoeiro imaginário cobria o meu campo de visão. Mesmo com milhares de pessoas a passarem diante mim, só via escuridão. A luz, essa, chegou de rompante numa esquina insuspeita. Um caminhar discreto, forte, certo. Um olhar desafiante. Uma força vital tão grande que derrubou por momentos a minha concentração de olhar sempre em frente sem pensar em nada. Não pude deixar de sentir o peso nos pés a deter-me no sítio do acontecimento e o meu pescoço, num movimento lentamente rotativo, a comandar o meu olhar escancaradamente aberto, a presenciar esta luz dourada, quente, inflamada. Na confusão da multidão que pouco importa a minha falta de movimento trouxe a mim um momento de revelação divina num toque brusco, rápido, fora do tempo, com este semi-deus que acabou de me roubar toda a minha estimada concentração, o meu movimento e o bater ritmado do meu coração. A velocidade do mundo, numa fracção de segundo, abrandou. Quando o olhei nos olhos, então sim, tudo parou. A minha mão direita, num instinto carnal de sobrevivência esgueirou-se rapidamente na direcção do calor humano, desenhando oculta, a meros milímetros de distância, a silhueta de uma cintura perfeita. “Desculpe”, disse ele, numa voz doce cuja vibração me fez suster a respiração, segurar bem forte o equilíbrio que me faltava e toda a réstia de sanidade que, depois desta visão-miragem, em mim escasseava.
Afastou-se num passo supostamente apressado. Supostamente pois este momento privou-me da capacidade de comparar e analisar. O Sagrado não mata o ímpio. O ímpio suicida-se num acto de auto-comiseração e prova de amor à Sua Beleza.
Segui-o pela multidão a uns bons metros de distância. Podia até faze-lo de olhos fechados seguindo unicamente o aroma do expirar que tão reconhecível pairava no ar, criando um rasto invisível de pétalas de rosa como a cauda de luz de um cometa. Seguia totalmente hipnotizado, completamente embriagado por esta bebida tão diferente.
O movimento cessou. Ele lá parou. Mantive a minha distância com medo de não me conseguir controlar, de pôr em risco todo o processo de suave absorção desta luz maravilhosa e de simplesmente não resistir à tentação de o empurrar para a linha do metro e ter logo ali uma explosão de luz, sangue e emoção. Parei. Respirei fundo. Aproximei-me a uma distância razoável. Parei de novo para respirar. Nunca uma caçada me deu tanta emoção. Encontrava-me agora a cerca de dois metros atrás dele. Ele estava a pouco mais de um passo de distância da linha do metro. Ah, como brilhava…
Estava a ouvir o sussurrar quieto do metro a aproximar-se. Não me pude conter. Avancei com dois passos na altura certa para o empurrar. Ao aproximar-me senti em mim uma intensa e quente electricidade pulsando quente no centro meu coração. Quando a ponta dos meus dedos o tocaram, deu-se o choque e, pela primeira vez numa caçada, a hesitação. Ele virou-se e olhou-me. Não sabia o que lhe dizer. Nunca me tinha sentido assim. O metro passa. Estava totalmente fora de mim. A capacidade de racionalizar, calcular, caçar, foram-se todas embora num único olhar. As portas abrem-se. Ele entra. Eu sigo. Sobrando só a vontade de sobreviver lá lhe consegui responder ao silêncio com umas palavras mentalmente gaguejadas:
“Creio que isto é seu…” E lá lhe apresentei a carteira que lhe tinha sacado, há poucos minutos, no momento de divina inspiração em que a minha mão viajou e no bolso do seu casaco encontrou o pedaço de informação essencial ao meu normal plano de execução.
Não costumo abdicar de tão preciosa informação mas o facto de estar perante tão invulgarmente luminosa e saborosa refeição que me deixa sem saber o que fazer, fez-me também perceber que, se não me podem valer os meus métodos usuais, teria então de improvisar.
“Ei! Essa é a minha carteira!”
“Deixou-a cair quando esbarramos ainda há pouco. Felizmente o encontrei.”
“Muitíssimo obrigado. Como o posso agradecer?”
Não. Isto não podia ser. Está a ser demasiado simples. Se pudesse ao menos responder sinceramente sem medo de o perder…
“Um simples sorriso seu já é o suficiente. Embora um café seja excelente!”
Não posso crer que respondi assim. Sinto-me completamente desorientado, perdido sem a capacidade de pensar correctamente, confuso pela emoção sem qualquer noção de risco –
“Acho óptimo!”
O quê?!
—
O Primo Abílio
Janeiro 29, 2008
O senhor João senta-se à mesa. Sem maneiras e sem pedir licença levanta-se de novo dizendo que vai “ali mijar”.
O apetite dos restantes convidados segue os passos do bruto em direcção a um lugar diferente, bem distante deste momento presente que, infelizmente todos tiveram de presenciar. Todos com excepção do primo Abílio que, coitado ou não, é fraco de ouvido e lento de compreensão e não parou nem um segundo de representar o papel de menino bem comportado que sua mãe, Dona Gertrudes, lhe ensinou mesmo antes de este nascer: à mesa é só para se comer.
Bem ensinado comia como um verdadeiro gentleman com uma destreza à mesa invejáveis até mesmo pelo primo Alberto, conhecido pianista. Sempre que o primo Abílio se sentava à mesa, nada levava a crer que esta pessoa tão bem educada fosse, fora dela, uma daquelas à qual as restantes pessoas gostam de chamar, em tom de segredo sussurrando, “atrasada”.
Anos a ter que presenciar a mãe a ser espancada pelo monstro a que teria de chamar “pai”, deram ao primo Abílio uma estranha incapacidade de lidar com o mundo real.
Depois de várias tentativas frustradas de fuga para resolver a situação, a fuga desta deu-se eventualmente: de Dona Gertrudes ficou o corpo e foi-se a mente. Irado com a súbita falta de choro e efeito sonoro do seu saco de boxe preferido, o monstro virou-se contra o seu próprio filho.
Teria na altura pouco mais que quatro anos. Quatro anos mais passaram até que o primo Abílio, numa matança de porco viu a providência divina revelar-se como a luz ao fundo do túnel: para escapar à dor, há sempre a morte.
Por isso, no dia seguinte, depois da usual dose de porrada matinal, o primo Abílio decidiu pegar na mesma faca que matara o porco e, com todos a dormir a sesta dominical, esgueirou-se à sala de estar e com todo o seu bem estar, por trás do sofá, pegou no cabelo do porco adormecido, puxou-o para trás e, com a mesma firmeza com que aprendeu a cortar o bife bem passado da avó Filomena, desferiu um golpe perfeito na garganta descoberta do seu pai. Viu-o ainda acordar e espernear. Não teve medo nem se mexeu. No dia anterior, quando viu o porco a chiar e sangrar o avô Manuel assegurou-lhe que era natural, “é só contar devagar até dez que depois já passa”. Calou-se no “quatro”, parou de se mexer no “seis”, deu o último pontapé no “dez” e assim foi.
Na família a noticia da morte do genro da Avó Filomena foi tomada num misto de alívio, mentira e apreensão. Um pacto foi selado nesse dia ao concordarem em silêncio que tinha sido um qualquer antigo colega de bebida que se tinha fartado de dívidas por saldar e decidiu assim assaltar a casa, fugir para Moçambique não sem antes, como bónus, acabar em definitivo com a fonte de dívidas.
Claro que a história só ganha vida depois de se ter, naturalmente, desarrumado a casa de cima a baixo, feito “desaparecer” todo o dinheiro que o bêbado guardava religiosamente nas calças e usa-lo para enviar, nessa mesma semana, o primo Abílio para a casa de Paris da Avó Filomena onde, sob sua tutela, e anos depois, se tornaria num dos mais brilhantes e conceituados chefs de França.
À polícia poucas dúvidas restaram. O chefe Rodrigo, bom investigador que era, sabia muito bem que toda a história estava mal contada. Lembrou-se de há uns anos atrás ter aparecido uma mulher de olhos verdes vivos pela esquadra adentro dizendo “o meu marido bate-me”, em que ele respondeu num tom trocista “olhe, aguente-se!”
Lembrou-se porque encontrou esse mesmo par de olhos em Dona Gertrudes sentada na cadeira de baloiçar da sala, de trás para a frente. Sem lágrimas desta vez, mas também sem vida. Num acto de consciência, como gosta de pensar e como disse off the record à nossa família, decidiu dar o caso como encerrado.
…
Não Sei Bem
Janeiro 29, 2008
Sentado admirando uma certa paisagem da qual já não me recordo, segurava o cigarro com a pérfida convicção de que tinha eu na mão o fogo de Prometeu. Sorria então, por segundos apenas, perante a ironia imensa dessa constatação:
A forma como usava o fogo da Evolução para minha própria destruição.
O crispar do cigarro, a invasão do fumo, o quase sufoco, a sádica satisfação de ter fogo, logo, poder na mão. A estranha sensação que é viver plenamente quando nos apercebemos que estamos a morrer constantemente.
Num olhar pesado, desinteressado, expirava lentamente. Sentia o fumo a sair e a sensação de alívio a fluir. Numa pequena morte, vive-se outra vez. Expele-se de vez o fumo e algum alcatrão.
Ver a nuvem de fumo a subir e pensar que tenho em mim um dragão e, pelo inconsciente colectivo deduzir, que tenho também a sua força e ambição…
Calam-se os pensamentos à medida que a mão direita repete o gesto do carniceiro que sadicamente baixa a guilhotina sem reparar no olhar de esperança derrotada da fénix consciente que está prestes a ter a cabeça cortada.
Não me importa deixar de pensar quando só quero por uns momentos morrer e renascer. Fumar é absolver. É a expressão última da transmutação pelo fogo. Suprimindo a liberdade, inflamando a Vontade que consome os pensamentos, se consome a si mesma e que renasce das cinzas como nova.
Precipício
Janeiro 29, 2008
Hesito
Dou um passo atrás
Pondero a decisão
Ganho balanço
Corro sem direcção
salto
Falta-me o chão
Caindo em suspensão
Sinto na minha cara o ar a correr
Sinto que vou morrer
Sorrio com o coração
Aumenta a velocidade
Sustenho a respiração
Aumenta a emoção
Revejo o infinito num segundo
Descubro a minha vocação
Por fim, embato no chão.
Lembrança Psicografada
Novembro 15, 2007
O fundo foi alcançado. Por fim, o poço infinito acabou e toda a escuridão e a luz ao fundo do túnel, que minguava a todo o microsegundo, acabou.
A luz e a escuridão. Ficaram ambas juntas para sempre num acinzentado pacto de paz assinado sabe-se lá por quem delas fosse dono. O som, esse, calou-se rapidamente quando o vento e o ar, empurrados pelo corpo em queda, atingiram juntamente com este o chão e num momento de indiscritivel descrição ouviu-se um misto de melodias: corpo, ar, vento, dor, chão. Nesse momento deu-se a explosão.
Tudo o resto é como nada. Um nada que se propaga, dissimula, corrompe, apaga: as memória do quer que tenha sido e do que poderia ter vindo a ser. Todo o momento colapsa consigo toda a (sua) eternidade. O tempo é falsidade: O paradoxo, realidade. Nada mais que nada.
As cores desapareceram à medida que se atravessa em mim toda a dor do mundo concentrada em menos de um segundo. A alegria vem muito depois. Centésimos milésimos de segundo depois. Uma eternidade num mundo sem Luz nem Vontade, chega e acalma, também o espírito e o corpo. Prepara, enfim, este último para a saída invariável do primeiro. A alegria dá-se inexplicavelmente cedo em tudo isto. Como já disse, o tempo é uma ilusão. Chega e arrebata como sua a existência anónima de um corpo sem vida e trás das trevas as memórias, iluminadas por uma luz incalculavelmente bela e forte, suave e eterna.
Como se tudo fosse nada mais do que mil milhões de milhares de fotografias e nós com olhos infinitos. As sensações antecipam-se mesmo à realização dos factos que estamos a recordar. A musica toca continuamente uma melodia de sons familiares, cheiros e sensações. A calma eterna. O som, não cessa.
O riso das crianças e o relembrar que uma já fomos: completa.
Completa e desperta o nosso espírito para coisas maiores.
Pena ter chegado tão tarde, digo eu. Pena o tempo não existir. Porque se existisse, como eu cria existir, saltaria nele e dele como uma criança chapinha numa poça de água lamacenta mas mesmo assim molhada, engraçada. Voltaria atrás ou à frente, não sei, para ver o Sol uma vez mais e o mar. A força do mar e da amizade. Ah, a amizade. De tudo do mundo isso seria o que levaria comigo se pudesse levar bagagem nesta viagem.
O som de risos, uma vez mais, por entre mil outros. A calma da Luz por entre a escuridão de uma quietude imensa de eterna companhia e harmonia.
Se pudesse, como creio poder, daria um último beijo a todos aqueles que me tocaram. Tentaria completar a vida daqueles que me abraçaram. Faria, como fazes tu, numa escrita desenfreada, por entre uma calma normal, de onde as palavras saem e fluem como rajadas de energia libertada, nesta trovoada de sentimentos, memórias e momentos para sempre presentes aqui comigo e sempre presentes aí contigo.
Não sei mais que dizer ou escrever. Tudo o que sai é forçado por este simples esforço de querer prolongar a vida de um cadáver. O que foi já mais não sou porque ser é mais do que ter o corpo que se tem e o tempo em que se vive. Por mais que me digam do contrário, ninguém me convencerá que a história acaba quando o livro termina. A mente do leitor vive e vive rica por entre riquezas de inominável valor: Entre outras, a riqueza do sentimento e o imenso valor do momento.
Nada começa. Nada termina. Tudo vibra. Tudo flui.
Ser poeta
Novembro 15, 2007
(…)
Ser poeta é ter nas mãos a semente do nosso coração.
É tornar a dor e o sentimento em música e alegria.
É saber e ter por certo que cada fruto que cai é mais uma árvore que nasce.
Fragmento (I)
Novembro 2, 2007
Aproximou-se a grande velocidade e sem aviso.
Ficou surpresa no meio da estrada por milésimos de segundo, encadeada por uma luz surgida do nada: A lebre foi atropelada.
Um simples salto no carro e já está. O puro branco da sua pelagem desfez-se numa fracção de segundo em vermelho sangue e preto alcatrão. A noite apaga a imagem que não chegou a ser e faz esquecer aquilo que não queremos relembrar. Numa canção de embalar, num tom leve e inebriante leva-nos a fechar os olhos e a aceitar o destino. A largar o volante e a lentamente sentir-me estranho, diferente, subitamente aliviado da dor e da emoção, sinónimos que habitam o meu coração.
Ignorar o barulho das rodas no separador. Tomar o som por um rouxinol cantor numa tarde de Verão ainda Primavera em que pela primeira vez te vi. Acordar resignado e insistir de novo, só mais um bocado, em ficar vivo e acordado. Em sofrer só mais um minuto, um e mais outro, e outro e outro e todos esses mais que seguem isolados sem razão ou sentimento; carregados unicamente com o esquecimento frio de não sei bem o quê - uma responsabilidade órfã e uma voz desfigurada que me diz que há coisas que o coração não deixa esquecer.
A essência roubada ao momento.
Setembro 17, 2007
A essência roubada ao momento.
A lembrança que ficou depois de tanto tempo.
Aquece e arrefece quando me lembro da tua presença e me apercebo da tua ausência. O frio enrijece a pele e faz-me querer fechar os olhos e sonhar outra vida, uma diferente despedida daquela que me deste - Injusta e silenciosa.
No olhar que me lançaste na réstia da lembrança de tempos passados, com os teus olhos abertos, fixados, bem alienados da falta de vida do teu corpo. No último bater do coração olhaste-me e vi. Reparei como se de nada se tratasse. Depois caí em mim e percebi. Nada disto faz sentido. Fiquei ainda uns segundos eternos á espera de acordar. Certamente teria de o fazer. Só podia estar a sonhar. Daqueles sonhos que ninguém quer ter. Com cores vivas e formas definidas, vi o teu sorriso desvanecer por entre um turbilhão de movimento, vidro, som e metal. Quando abri os olhos e acordei, esperei ainda acordar outra vez. Esperei pelo choque, o calor e a respiração ofegante de um típico pesadelo. Esperei acordar e sentir os teus braços a abraçarem-me e os teus lábios a tocarem a minha cara e a beijarem-me e a dizeres na tua simples e ensonada simpatia: “Pronto. Já passou.”
Mas nada disso se passou. Apenas ficou a aterrorizante imagem do teu rosto coberto de sangue e os teus olhos sem brilho a fixarem-me.
Gritei mas não acordei. Gritei mas não te acordei. Chorei. Chorei. Chorei por todas as razões que havia para chorar. Mas chorei principalmente porque não te consegui amar o suficiente para te salvar. Ficou apenas a vontade inútil e a tentativa frustrada de te abraçar, de te abanar, de te tentar acordar.
Roubado das razões para viver tentei ainda chorar anos depois. Não consegui. Não havia mais nada para chorar. Não havia mais razão para sentir. Toda a vida era luto e só luto podia ser.
A forma desaparece e fica apenas a silhueta negra do que resta - nada.
As lágrimas foram secando ao longo do tempo e sulcando a minha cara num rosto de tristeza perene, lembranças de uma alma despida de toda a sua riqueza.
Prelúdio Incandescente
Julho 25, 2007
Era uma vez, daquelas raras vezes que não se contam nem se inventam. Uma daquelas “vezes” que se gosta de recordar lentamente, saboreando cada momento revivido pela imaginação e pela silhueta de um momento de eterna emoção. Ficou para sempre marcada no meu coração. Nunca irei esquecer esse dia que parece que nunca vivi. Um sonho transtornado, uma respiração ofegante, um acordar transpirado. O arder por dentro de um Amor que existe apenas na imaginação fundada em longos suspiros, eternas pausas de pensamento. Singelos e simples complexos momentos em que o Universo pára e nós somos projectados em toda a sua extensão à velocidade do pensamento.
Fica para trás o Universo menos dois. Fica para trás o ruído estático e descomedido da respiração que acelera e tenta acompanhar a razão pela qual o coração bate, explode, rebenta dentro do meu peito.
A razão que me controla e me faz suspirar “ah” esquentado e mover em direcção á melodia do teu olhar. A vontade - necessidade - de alcançar o centro do Universo e tocar
o teu rosto
acariciar.
Sentir-te a dançar suavemente nas minhas mãos - electrificar
A energia a fluir. Sentir apenas mais o aproximar e o ar a faltar. O último cruzar de olhar. O parar de sentir. A pausa antes de rebentar.
O começar a beijar.
Ter em um único ponto, um turbilhão de sentimentos, cento e cinquenta momentos.
Sentir a sobrecarga de emoção corpo a fraquejar, as pernas a ceder. Deslizar a mão, desenhar-te em carícias, estimular a imaginação, apoiar o meu braço na tua cintura.
Partilhar a abundância de ternura. Chegar mais perto ainda para sentir o teu coração a bater loucamente contra o meu no mesmo compasso descompassado, com o ritmo desacertado por um incêndio desejo.
Sentir o teu cabelo a fluir na mão que descansa movimentada no teu pescoço nu. Afasta-la e descobrir mais para beijar. Fugir para respirar. Sentir saudades e voltar. Continuar até mais não se aguentar. Até que começar a sentir o ar espesso que nos separa. Combater para o vencer. Um a um, numa nervosa sucessão, desapertar os botões da camisa para que possa tocar, ouvir, sentir, beijar. A batida do teu coração. Num beijo arrastado peito acima, consagrar a descoberta. Encarar-te de frente. Um beijo diferente. Sentir-me mais perto de ti. As tuas mãos na minha cintura. Agarras na minha camisola e puxas para cimas levemente. Sinto os teus lábios a seguir as tuas mãos, descarregando em mim calor e electricidade. Com os braços no ar, volto a encontrar o teu olhar. Um momento antes de ser levado a beijar-te, tocar-te. Acariciar as tuas costas e sentir as tuas mãos a percorrerem os meus ombros, os meus braços que te embraçam. Sentir então, por fim, o bater de dois corações - um. Sem artifícios ou interrupções. O fluxo de sensações –