A essência roubada ao momento.

A lembrança que ficou depois de tanto tempo.

Aquece e arrefece quando me lembro da tua presença e me apercebo da tua ausência. O frio enrijece a pele e faz-me querer fechar os olhos e sonhar outra vida, uma diferente despedida daquela que me deste – Injusta e silenciosa.

No olhar que me lançaste na réstia da lembrança de tempos passados, com os teus olhos abertos, fixados, bem alienados da falta de vida do teu corpo. No último bater do coração olhaste-me e vi. Reparei como se de nada se tratasse. Depois caí em mim e percebi. Nada disto faz sentido. Fiquei ainda uns segundos eternos á espera de acordar. Certamente teria de o fazer. Só podia estar a sonhar. Daqueles sonhos que ninguém quer ter. Com cores vivas e formas definidas, vi o teu sorriso desvanecer por entre um turbilhão de movimento, vidro, som e metal. Quando abri os olhos e acordei, esperei ainda acordar outra vez. Esperei pelo choque, o calor e a respiração ofegante de um típico pesadelo. Esperei acordar e sentir os teus braços a abraçarem-me e os teus lábios a tocarem a minha cara e a beijarem-me e a dizeres na tua simples e ensonada simpatia: “Pronto. Já passou.”

Mas nada disso se passou. Apenas ficou a aterrorizante imagem do teu rosto coberto de sangue e os teus olhos sem brilho a fixarem-me.

Gritei mas não acordei. Gritei mas não te acordei. Chorei. Chorei. Chorei por todas as razões que havia para chorar. Mas chorei principalmente porque não te consegui amar o suficiente para te salvar. Ficou apenas a vontade inútil e a tentativa frustrada de te abraçar, de te abanar, de te tentar acordar.

Roubado das razões para viver tentei ainda chorar anos depois. Não consegui. Não havia mais nada para chorar. Não havia mais razão para sentir. Toda a vida era luto e só luto podia ser.

A forma desaparece e fica apenas a silhueta negra do que resta – nada.

As lágrimas foram secando ao longo do tempo e sulcando a minha cara num rosto de tristeza perene, lembranças de uma alma despida de toda a sua riqueza.

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