Lembrança Psicografada

Novembro 15, 2007

O fundo foi alcançado. Por fim, o poço infinito acabou e toda a escuridão e a luz ao fundo do túnel, que minguava a todo o microsegundo, acabou.
A luz e a escuridão. Ficaram ambas juntas para sempre num acinzentado pacto de paz assinado sabe-se lá por quem delas fosse dono. O som, esse, calou-se rapidamente quando o vento e o ar, empurrados pelo corpo em queda, atingiram juntamente com este o chão e num momento de indiscritivel descrição ouviu-se um misto de melodias: corpo, ar, vento, dor, chão. Nesse momento deu-se a explosão.
Tudo o resto é como nada. Um nada que se propaga, dissimula, corrompe, apaga: as memória do quer que tenha sido e do que poderia ter vindo a ser. Todo o momento colapsa consigo toda a (sua) eternidade. O tempo é falsidade: O paradoxo, realidade. Nada mais que nada.
As cores desapareceram à medida que se atravessa em mim toda a dor do mundo concentrada em menos de um segundo. A alegria vem muito depois. Centésimos milésimos de segundo depois. Uma eternidade num mundo sem Luz nem Vontade, chega e acalma, também o espírito e o corpo. Prepara, enfim, este último para a saída invariável do primeiro. A alegria dá-se inexplicavelmente cedo em tudo isto. Como já disse, o tempo é uma ilusão. Chega e arrebata como sua a existência anónima de um corpo sem vida e trás das trevas as memórias, iluminadas por uma luz incalculavelmente bela e forte, suave e eterna.
Como se tudo fosse nada mais do que mil milhões de milhares de fotografias e nós com olhos infinitos. As sensações antecipam-se mesmo à realização dos factos que estamos a recordar. A musica toca continuamente uma melodia de sons familiares, cheiros e sensações. A calma eterna. O som, não cessa.
O riso das crianças e o relembrar que uma já fomos: completa.
Completa e desperta o nosso espírito para coisas maiores.
Pena ter chegado tão tarde, digo eu. Pena o tempo não existir. Porque se existisse, como eu cria existir, saltaria nele e dele como uma criança chapinha numa poça de água lamacenta mas mesmo assim molhada, engraçada. Voltaria atrás ou à frente, não sei, para ver o Sol uma vez mais e o mar. A força do mar e da amizade. Ah, a amizade. De tudo do mundo isso seria o que levaria comigo se pudesse levar bagagem nesta viagem.
O som de risos, uma vez mais, por entre mil outros. A calma da Luz por entre a escuridão de uma quietude imensa de eterna companhia e harmonia.
Se pudesse, como creio poder, daria um último beijo a todos aqueles que me tocaram. Tentaria completar a vida daqueles que me abraçaram. Faria, como fazes tu, numa escrita desenfreada, por entre uma calma normal, de onde as palavras saem e fluem como rajadas de energia libertada, nesta trovoada de sentimentos, memórias e momentos para sempre presentes aqui comigo e sempre presentes aí contigo.
Não sei mais que dizer ou escrever. Tudo o que sai é forçado por este simples esforço de querer prolongar a vida de um cadáver. O que foi já mais não sou porque ser é mais do que ter o corpo que se tem e o tempo em que se vive. Por mais que me digam do contrário, ninguém me convencerá que a história acaba quando o livro termina. A mente do leitor vive e vive rica por entre riquezas de inominável valor: Entre outras, a riqueza do sentimento e o imenso valor do momento.

Nada começa. Nada termina. Tudo vibra. Tudo flui.

Ser poeta

Novembro 15, 2007

(…)
Ser poeta é ter nas mãos a semente do nosso coração.
É tornar a dor e o sentimento em música e alegria.
É saber e ter por certo que cada fruto que cai é mais uma árvore que nasce.

Fragmento (I)

Novembro 2, 2007

Aproximou-se a grande velocidade e sem aviso.
Ficou surpresa no meio da estrada por milésimos de segundo, encadeada por uma luz surgida do nada: A lebre foi atropelada.
Um simples salto no carro e já está. O puro branco da sua pelagem desfez-se numa fracção de segundo em vermelho sangue e preto alcatrão. A noite apaga a imagem que não chegou a ser e faz esquecer aquilo que não queremos relembrar. Numa canção de embalar, num tom leve e inebriante leva-nos a fechar os olhos e a aceitar o destino. A largar o volante e a lentamente sentir-me estranho, diferente, subitamente aliviado da dor e da emoção, sinónimos que habitam o meu coração.
Ignorar o barulho das rodas no separador. Tomar o som por um rouxinol cantor numa tarde de Verão ainda Primavera em que pela primeira vez te vi. Acordar resignado e insistir de novo, só mais um bocado, em ficar vivo e acordado. Em sofrer só mais um minuto, um e mais outro, e outro e outro e todos esses mais que seguem isolados sem razão ou sentimento; carregados unicamente com o esquecimento frio de não sei bem o quê – uma responsabilidade órfã e uma voz desfigurada que me diz que há coisas que o coração não deixa esquecer.