O Primo Abílio

Janeiro 29, 2008

O senhor João senta-se à mesa. Sem maneiras e sem pedir licença levanta-se de novo dizendo que vai “ali mijar”.
O apetite dos restantes convidados segue os passos do bruto em direcção a um lugar diferente, bem distante deste momento presente que, infelizmente todos tiveram de presenciar. Todos com excepção do primo Abílio que, coitado ou não, é fraco de ouvido e lento de compreensão e não parou nem um segundo de representar o papel de menino bem comportado que sua mãe, Dona Gertrudes, lhe ensinou mesmo antes de este nascer: à mesa é só para se comer.
Bem ensinado comia como um verdadeiro gentleman com uma destreza à mesa invejáveis até mesmo pelo primo Alberto, conhecido pianista. Sempre que o primo Abílio se sentava à mesa, nada levava a crer que esta pessoa tão bem educada fosse, fora dela, uma daquelas à qual as restantes pessoas gostam de chamar, em tom de segredo sussurrando, “atrasada”.
Anos a ter que presenciar a mãe a ser espancada pelo monstro a que teria de chamar “pai”, deram ao primo Abílio uma estranha incapacidade de lidar com o mundo real.
Depois de várias tentativas frustradas de fuga para resolver a situação, a fuga desta deu-se eventualmente: de Dona Gertrudes ficou o corpo e foi-se a mente. Irado com a súbita falta de choro e efeito sonoro do seu saco de boxe preferido, o monstro virou-se contra o seu próprio filho.
Teria na altura pouco mais que quatro anos. Quatro anos mais passaram até que o primo Abílio, numa matança de porco viu a providência divina revelar-se como a luz ao fundo do túnel: para escapar à dor, há sempre a morte.
Por isso, no dia seguinte, depois da usual dose de porrada matinal, o primo Abílio decidiu pegar na mesma faca que matara o porco e, com todos a dormir a sesta dominical, esgueirou-se à sala de estar e com todo o seu bem estar, por trás do sofá, pegou no cabelo do porco adormecido, puxou-o para trás e, com a mesma firmeza com que aprendeu a cortar o bife bem passado da avó Filomena, desferiu um golpe perfeito na garganta descoberta do seu pai. Viu-o ainda acordar e espernear. Não teve medo nem se mexeu. No dia anterior, quando viu o porco a chiar e sangrar o avô Manuel assegurou-lhe que era natural, “é só contar devagar até dez que depois já passa”. Calou-se no “quatro”, parou de se mexer no “seis”, deu o último pontapé no “dez” e assim foi.
Na família a noticia da morte do genro da Avó Filomena foi tomada num misto de alívio, mentira e apreensão. Um pacto foi selado nesse dia ao concordarem em silêncio que tinha sido um qualquer antigo colega de bebida que se tinha fartado de dívidas por saldar e decidiu assim assaltar a casa, fugir para Moçambique não sem antes, como bónus, acabar em definitivo com a fonte de dívidas.
Claro que a história só ganha vida depois de se ter, naturalmente, desarrumado a casa de cima a baixo, feito “desaparecer” todo o dinheiro que o bêbado guardava religiosamente nas calças e usa-lo para enviar, nessa mesma semana, o primo Abílio para a casa de Paris da Avó Filomena onde, sob sua tutela, e anos depois, se tornaria num dos mais brilhantes e conceituados chefs de França.
À polícia poucas dúvidas restaram. O chefe Rodrigo, bom investigador que era, sabia muito bem que toda a história estava mal contada. Lembrou-se de há uns anos atrás ter aparecido uma mulher de olhos verdes vivos pela esquadra adentro dizendo “o meu marido bate-me”, em que ele respondeu num tom trocista “olhe, aguente-se!”
Lembrou-se porque encontrou esse mesmo par de olhos em Dona Gertrudes sentada na cadeira de baloiçar da sala, de trás para a frente. Sem lágrimas desta vez, mas também sem vida. Num acto de consciência, como gosta de pensar e como disse off the record à nossa família, decidiu dar o caso como encerrado.

Não Sei Bem

Janeiro 29, 2008

Sentado admirando uma certa paisagem da qual já não me recordo, segurava o cigarro com a pérfida convicção de que tinha eu na mão o fogo de Prometeu. Sorria então, por segundos apenas, perante a ironia imensa dessa constatação:
A forma como usava o fogo da Evolução para minha própria destruição.
O crispar do cigarro, a invasão do fumo, o quase sufoco, a sádica satisfação de ter fogo, logo, poder na mão. A estranha sensação que é viver plenamente quando nos apercebemos que estamos a morrer constantemente.
Num olhar pesado, desinteressado, expirava lentamente. Sentia o fumo a sair e a sensação de alívio a fluir. Numa pequena morte, vive-se outra vez. Expele-se de vez o fumo e algum alcatrão.
Ver a nuvem de fumo a subir e pensar que tenho em mim um dragão e, pelo inconsciente colectivo deduzir, que tenho também a sua força e ambição…
Calam-se os pensamentos à medida que a mão direita repete o gesto do carniceiro que sadicamente baixa a guilhotina sem reparar no olhar de esperança derrotada da fénix consciente que está prestes a ter a cabeça cortada.
Não me importa deixar de pensar quando só quero por uns momentos morrer e renascer. Fumar é absolver. É a expressão última da transmutação pelo fogo. Suprimindo a liberdade, inflamando a Vontade que consome os pensamentos, se consome a si mesma e que renasce das cinzas como nova.

Precipício

Janeiro 29, 2008

Hesito
Dou um passo atrás
Pondero a decisão
Ganho balanço
Corro sem direcção

salto

Falta-me o chão

Caindo em suspensão

Sinto na minha cara o ar a correr

Sinto que vou morrer

Sorrio com o coração

Aumenta a velocidade

Sustenho a respiração

Aumenta a emoção

Revejo o infinito num segundo
Descubro a minha vocação
Por fim, embato no chão.