Amnésia Tristeza

Abril 27, 2007

Era uma manhã silenciosa aquela para a qual acordei depois de uma noite de sonhos cheia, tempestuosa.
O silêncio caracterizava-se pela sua simples presença indesejada em toda a composição matinal; se alguma vez pudesse haver pior companhia e se este pudesse escolher, a solidão seria quem ele escolheria.
E pelos vistos foi exactamente isso que escolheu.
Ficaram parados a olhar-me quieto na cama suado, a transpirar um medo indescritível e uma respiração acelerada. Acordara depois de um pesadelo e pedira por companhia: Pouco eu sabia que seria o silencio que me iria receber em sua casa.
Fiquei pasmado ao acordar por esse longo bocado e encontrei-me frente a algo mais assustador do que o sonho do qual me retirei e da possibilidade íntima deste ser realidade.
Tinha acordado para um presente, realidade, mais assombrado:
A minha solidão e o silêncio que a rodeava. Todas elas chamavam: Todas elas gritavam por ajuda nesta situação: Todas elas chamavam e clamavam pela minha imaginação.
Como uma tela em branco grita pelas cores e formas que teve, um dia ou nesse momento, na mente do pintor, chamavam também essas duas meninas de rua por uma companhia depois do que parece ter sido uma noite para elas fria e no que se imaginava uma manhã gelada.
Levantei-me sem Vontade, uma vez mais, como se levanta um recluso que não mais acredita na Liberdade. Peguei em mim e arrastei-me até uma casa de banho imaginada, por entre sombras de luz alaranjada.
Aí deparei-me com o meu reflexo como quem olha para a televisão e vê nela um filme já tantas vezes repetido – e sempre, todas as vezes, interrompido por um intervalo de coisas assustadas e sem sentido que surgem na bruma de uma indefinição na história. Por um minuto – e um minuto apenas – calou-se a solidão. Tudo parecia tão calmo em frente ao que parecia um ecrã de televisão. Depois, enfim, veio uma pausa a esse mundo e um acordar para outro totalmente diferente. As mãos efectuaram um gesto já mecanizado como o de abstracção que passou há momentos: Levaram-se à água fria, gélida, e atiraram esta para um rosto que clamava descanso mas que gritava – sem voz – por mais uns momentos de sonho e irrealidade. Mais uns momentos, só, num mundo arquitectado pela Vontade.
E a água lavou e escorreu na cara enrugada, ensonada, e acordou esta cara cansada. Ficou rígida, desperta, acordada.
Como um puzzle que se descompleta e se desmorona e se dispersa: “Este é um novo dia.” – Tentou-se convencer. Todos os dias desmonta a sua torre de fortes convicções só para se convencer daquilo que seria impossível fazer quando esta ainda se encontrava de pé:
Que hoje é um novo dia. Que passará bem mais rápido – melhor.
O que ele não sabia era que o hoje e o amanhã apenas diferem de nome. Tudo o resto é ilusão, choro e saudade.
Depois do mantra repetido vezes sem conta, sem voz e na sua inconsciência, reconstrui-se a si mesmo e à sua torre de realidade.
Vestiu-se e cobriu-se de vestes que o dizia proteger de um ambiente agreste. Não sabia ele que apenas delas se cobria para se esconder de quem não via, imaginava ou sentia aquilo que este sentia por dentro. As vestes incluíam um sorriso invertido, umas mãos enrugadas e uns olhos fixados no horizonte. A vestimenta, essa pouca importância tinha pois pouca importância parecia ter perante um guarda-roupa que se imitava incessantemente a si mesmo: Cores escuras, negro, vazio.
Havia, no entanto, uma peça mais clara, melancolicamente alegre, lá bem escondida por entre quantidades incontáveis de roupa escura coberta de lágrimas invisíveis e lembranças dos dias que já não se contam: A roupa que vestira no dia do seu casamento. Por mais encoberta, secreta, que estivesse, esteve sempre presente a peça de roupa e a lembrança do momento e associada a ela, o sentimento de saudade e também a vontade de ser Deus e ter o tempo na palma da mão para que o fizesse parar e voltar atrás. Para que rodasse a ampulheta, corresse no sentido oposto, junto aos momentos de alegria que me proporcionaste.
Outrora esquecidos, agora relembrados.
O tempo é cruel à memória dos momentos que são demasiado grandes e importantes para se manterem enclausurados, presos, enjaulados, nesta pequena cabeça. Tais recordações guardam-se no coração, onde o tamanho não interessa, onde o calor professa, chora: “Amor!”, na sua linguagem, aquecendo o coração com calmas recordações e o corpo com momentos de quente paixão.
Por lá fica e por lá continua a ficar uma recordação infinita que salta e saltita sempre que olha a um tal objecto que solta, salta, liberta, um reflexo primordial do coração e todo o corpo aquece e todo o corpo estremece. E todo o corpo vibra. E todo o corpo arrefece quando a saudade se torna evidente e a solidão é toda a nossa companhia daí para a frente. Fica, contada, a lembrança ingrata que ficou gravada na pedra agora fria de um imortal sentimento de paixão, pelas mãos do Destino e o duro escropo da realidade.
Agora pouco importa relembrar pois a lembrança só pode trazer consigo a mais fraca esperança da tua companhia etérea, da tua presença santa, intocável – pura lembrança. Lembrança que não posso beijar, lembrança que não posso abraçar, lembrança que embora pareça ouvir, parece não ser capaz de falar, abrir a boca e professar amor por mim, de volta, como o faço eu por ti. Tantas vezes o faço e muitas vezes mais fico sem resposta. Toda a companhia e resposta que recebo é apenas o meu eco, da minha voz, do meu pensamento e do meu bocejo – Vontade calada de voltar a sonhar com um último beijo -
Medo indescritível de te voltar a perder -
Vontade sem coragem de ceder ao esquecimento e morrer junto com aquele momento Negro que salta fora do Tempo e Espaço, onde toda a Luz do mundo se apagou juntamente com a tua. No momento insuportável em que teria dado a vida por ti mas não consegui. Fiquei preso nas minhas lágrimas e tristes pedidos de clemência a um Deus imaginado por uma Esperança estilhaçada- um coração rebentado. Fiquei preso na minha vida, existência; sem ti;
impotência.
Preso a uma existência de solidão acompanhada pelo mundo quando teria, com muito gosto, trocado isso por uma inexistência contigo apenas.
Mas o tempo passa e corre e a tua voz doce ecoa como um sinal de rádio perdido e esquecido nesta mente e corpo que teima em viver e olhar em frente: “Sorri! Está um dia lindo!”.
E assim o fiz. Pus toda a minha vontade de irrealidade atrás de mim e sorri, simplesmente. Como um tolo, ri sem parar quando me lembrei do momento em que uma rajada de vento te fez tropeçar, ao teu belo, leve e esbelto corpo. Como se de uma borboleta te tratasses, por uns instantes, voaste. Lembrei-me do olhar severo que me lançaste pois era jovem e não conseguia esconder o sorriso evidente perante tal caricata figura.
Inclinei-me para te ajudar a levantar. Declinaste por segundos, com um silêncio aterrador. Lá cedeste, no entanto, à minha jovem insistência oferecendo a mão que tomei com confiança antes de me puxares também para o chão, como uma criança. Levantaste-te e riste para mim. Não vi pois tinha a cara enterrada no chão. Mas ouvi e percebi. Então sorri também, levantei-me, olhei-te nos olhos e aí vi
neles uma profunda pureza, misteriosa,
surpresa. Um brilho de pérolas negras e diamantes.
Puxaste-me junto a ti e aí, com o meu fôlego roubado, percebi, como tu, e como os nossos lábios, que se tocavam lentamente, num instante de quente extensão e emoção, que te amava.
Foi o dia em que nos apaixonamos. Não ficou mais nada para além dos gestos, dos olhares e do silêncio que se seguiu ao beijo roubado ao momento de infinito sossego, tranquilo e agitado, por entre brincadeiras de criança. Tudo o resto desvanece como desaparece a Lua quando o Sol brilha: Por momentos apenas.
Ficará sempre a lembrança das nossas brincadeiras de criança.